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Choques e Surpresas

Bárbara Burns – “Costumes e Culturas”

Observando as diversas culturas do mundo, vemos que cada povo tem sua própria ideia a respeito de um assunto qualquer. Cada povo considera sua ideia como universal e a única correta. Tomemos como exemplo a maneira de se vestir. Muitas vezes uma determinada vestimenta que, para um povo, encaixa-se totalmente nos seus conceitos de modéstia, para outro povo é totalmente escandalosa. Seria uma coisa rara ver uma mulher sem meia fina num culto de qualquer igreja nos Estados Unidos. Mas, aqui no Brasil, isso não é necessário. Por outro lado, nós, como brasileiros, acharíamos muito estranho alguém participar de um culto usando chapéu, o que no Haiti é um costume absolutamente normal. No Zaire, África, entre a tribo dos ngbakas, os presbíteros da igreja se recusaram a aceitar a exigência dos missionários de que as suas esposas usassem blusas na igreja. Algum tempo depois, os missionários descobriram que naquela aldeia somente as prostitutas usavam blusas, pois só elas tinham dinheiro para comprar roupas melhores.

Outro exemplo: — e há muitos — na ilha de Yap, os chefes da aldeia exigiram que as mulheres usassem saias até aos pés. Para eles, é chocante uma mulher mostrar qualquer parte das pernas, e uma brasileira que lá fosse com sua saia só até o joelho causaria muitos comentários!

Há muitas diferenças também nas atitudes dos povos em relação ao ato de amamentar os nenés. No Brasil, é aceitável a mãe descobrir o peito e dar de mamar em quase qualquer lugar. Nos Estados Unidos, isso não é aceitável. Em outros lugares, isso não é uma preocupação, porque as mulheres nunca cobrem o peito, e cada nené tem fácil e imediato acesso às suas “refeições”!

Além da maneira de se vestir, há muitos outros costumes que variam de povo para povo. Um missionário nas Filipinas ficou zangado quando, ao receber algumas visitas, estas limparam, com os seus lenços, as cadeiras onde iam se sentar. Depois, à mesa, fizeram a mesma coisa com os pratos e os talheres. Para o missionário, aquilo era um grande insulto à capacidade da sua esposa de limpar a casa e lavar as louças! Mas, na realidade, a reação do missionário foi errada, pois aquelas atitudes demonstravam boas maneiras, segundo o costume daquele povo.

Nós pensamos que nossos costumes é que são certos, e rimo-nos dos costumes dos outros. É esquisito ver um chefe africano vestido orgulhosamente duma capa de frio que ganhou, onde o clima é sempre quente. Mas não achamos esquisito quando, num dia de muito calor, um pastor prega numa de nossas igrejas vestido de paletó e gravata — e suando muito!

Nossos costumes em outras partes do mundo podem ser considerados ridículos e engraçados. Certa vez, um casal de missionários estava trabalhando com uma tribo de índios que costumavam pintar seus corpos e não usavam nenhuma roupa. Mesmo assim, a esposa do missionário achava que as bermudas do marido eram curtas demais. Imediatamente, emendou nelas três dedos de renda cor-de-rosa para cobrir-lhe os joelhos expostos.

Certa missionária recebeu uma carta de sua irmã que morava nos Estados Unidos, perguntando-lhe: “Você tem ensinado a doutrina das roupas santificadas?” A missionária respondeu: “Minha querida irmã, teremos sorte, se, pelo monos, o povo daqui usar alguma roupa!”

Se não entendermos as razões de determinados costumes, não poderemos apreciá-los e muito menos aceitá-los. Por exemplo, na Tailândia, as mulheres não podem ocupar quartos do primeiro andar do hospital e os homens do térreo; isso significaria que as mulheres são superiores aos homens — coisa inaceitável naquela cultura. Também naquele país não se pode cruzar as pernas e mostrar a planta do pé para alguém; isso seria um grande insulto. Engraçado? Não! Apenas diferente para nós, mas com significado para eles.

Diferenças assim podem causar sérias dificuldades. No Japão, é ética social curvar-se diante de uma pessoa para cumprimentá-la. Algumas vezes, missionários que foram ao Japão em campanhas evangelísticas pensaram que muitos japoneses estavam aceitando Cristo, quando na realidade, devido ao seu modo de cumprimentar, estavam apenas sendo corteses para com eles.

Outro exemplo que mostra o quanto é difícil entender certas atitudes, quando não se compreendem as suas razões básicas, foi o que ocorreu nas ilhas Marshall, do Pacífico. Os missionários dali recebiam cartas apenas uma vez por ano, por ocasião da chegada de um navio. Certa vez, o navio chegou adiantado, e os missionários não estavam em casa. O capitão do navio deixou as cartas com o povo da ilha e foi-se embora. Eles ficaram muito contentes por terem em suas mãos aquilo de que os missionários gostavam tanto. Começaram, então, a examinar as cartas para descobrirem por que eram motivo de tanta alegria para os missionários. Não achando nada de especial, rasgaram, cozinharam e comeram as cartas. Ainda assim, não descobriram o seu segredo. Quando os missionários voltaram e viram o mingau de suas cartas, o povo não pôde entender a reação deles. Você ficaria bravo se alguém fizesse um cozido de sua correspondência, recebida apenas uma vez por ano, simplesmente por querer descobrir por que ela é causadora de tanta alegria?

Na China, as pessoas pensavam que os missionários louvavam as cadeiras, porque oravam ajoelhados de frente para elas.

Da mesma forma, os índios navajos, dos Estados Unidos, pensavam que os missionários louvavam o pinheiro de Natal por se preocuparem tanto em enfeitá-lo.

Muitas vezes saímos da nossa terra pensando que somos os melhores, que os nossos costumes é que são corretos. Julgamos as atividades dos outros, sem entender por que aquele povo está agindo daquela forma, e agimos conforme os nossos costumes, sem perceber como estamos sendo analisados por eles.

Os norte-americanos decepcionam os brasileiros porque, no cumprimentar, os homens americanos não apertam as mãos de todos, e as suas mulheres não abraçam e beijam as brasileiras. Já os americanos estranham a maneira fria de os ingleses se cumprimentarem. Por outro lado, um brasileiro nos Estados Unidos ou na Inglaterra causaria espanto, por sua maneira calorosa de cumprimentar as pessoas. Também no Zimbabué, um brasileiro nunca poderia pedir uma informação a um desconhecido, sem antes perguntar sobre a saúde da sua esposa ou dos seus filhos, como vão os negócios ou como está o clima. Na África do Sul uma brasileira poderia levar um susto quando, ao cumprimentar outra mulher, fosse beijada nos lábios. Na Rússia é pior ainda para quem não está acostumado, pois os homens é que se cumprimentam bei­jando uns aos outros na boca!

Poderíamos, igualmente, causar estranheza a um shiluk, do Sudão, se lhe oferecêssemos qualquer coisa sem usar as duas mãos (pois eles nunca usam só uma das mãos), ou se não pedíssemos licença para usar o caminho quando cruzássemos com outra pessoa.

Eugene Nida, escritor, cometeu um grave erro em certa parte da África, quando apontou com o dedo as coisas cujo nome queria saber. Isso era muito errado e grosseiro. Em vez de usar o dedo, ele deveria ter usado o lábio inferior!

Na Micronésia, não se usa nem o dedo nem o lábio inferior quando se aponta para um objeto, mas, sim, fecha-se um olho na direção do objeto!

Quantas vezes nós julgamos um povo e o consideramos ignorante, quando na realidade ele tem muito a nos ensinar. Por exemplo, como os homens das ilhas Marshall podem navegar em embarcações tão pequenas, atravessando centenas de quilómetros, e achar ilhas pequeninas e quase invisíveis? Eles possuem um conhecimento muito grande sobre o mar, que só temos de admirar.

Uma tribo de índios, que vive de frutas e caça, mora em casas de palha e quase não usa roupas, muitas vezes tem uma vida normal muito melhor do que o povo, por exemplo, de uma grande cidade. Por isso, vamos tomar o cuidado de não dar o título de “selvagem” a uma pessoa que para nós é aparentemente inferior, só porque ela não tem os mesmos costumes que nós.

A comunicação do evangelho é muito difícil se não imitarmos Jesus, o qual, para se fazer compreendido e mostrar amor, iden-tificou-se com os homens, não só encarnando-se em forma humana, mas também encarnando-se culturalmente. “Ele veio para os seus…” Os seus eram o povo judeu. Por isso, Ele falou a língua daquele povo, vestiu-se conforme os costumes da época, comeu o que eles comiam, dormiu onde eles dormiam — enfim, Jesus foi um judeu como todos os outros, humanamente falando.

Devemos humildemente procurar compreender um povo com o qual trabalhamos, falando a sua língua e evitando todo escândalo cultural que possa fechar as portas para o evangelho.

O amor de Deus manifestar-se-á através das nossas vidas quando pudermos comunicar o evangelho identificados culturalmente com todos.

O processo de aprendizagem da língua e dos costumes não vem automaticamente, assim que pisamos o campo missionário. Quando lá chegamos, somos como crianças que irão aprender como viver. É como uma verdadeira morte para a nossa cultura. Então, em todo o tempo que lá estivermos, sempre estaremos aprendendo e nos aperfeiçoando no nosso processo de identificação.

Quanto à língua, vejamos alguns exemplos que mostram algumas dificuldades que poderemos enfrentar. Tomemos, principalmente, a palavra “coração”. Falamos que sentimos tristeza, amor, alegria, etc, referindo-nos ao nosso coração. Isso para os karrés, na África, não tem sentido, pois suas emoções são localizadas no fígado; para os conobos, da Guatemala, as emoções estão no abdómen, e para os habitantes das ilhas Marshall, na garganta. Quando os habbes, da África, querem comunicar que estão tristes, dizem: “Meu fígado está doente”. E os seus vizinhos do norte, os bambaras, referem-se à tristeza, dizendo: “Meu olho está preto”.

Talvez sejam muito estranhas para o nosso ouvido as expressões acima descritas, mas há também o outro lado da moeda. Para os que estão nos ouvindo, soam também estranhas as expressões que usamos: “estou morrendo de medo”; “estou cheio de amargura”; “meu coração está triste”; “estou fervendo de raiva”, etc.

Em tais campos missionários, será preciso muito mais do que aprender a língua, pois muitas dessas línguas nunca foram analisadas, e, portanto, não há ortografia, gramática expositiva, dicionários ou livros escritos no idioma. Isso será um trabalho a ser feito pelo missionário, pois ele precisará dar também a Bíblia escrita para o povo. Ele terá de aprender e analisar o sistema gramatical daquela língua para poder dar-lhe uma ortografia prática. Neste processo, sua língua materna terá que ceder a esta nova língua, tão necessária para o seu trabalho.

Certo missionário, que trabalhava entre uma tribo indígena do Norte do Brasil, ao traduzir um versículo da Bíblia, cometeu um grave erro. Ele estava dizendo aos índios: “Pequem”, enquanto o certo seria: “Não pequem”. Acontece que a palavra não é um som muito difícil de ser distinguido dos outros, e ele ainda não o tinha ouvido.

Também é de suma importância saber a reação que uma ação nossa vai causar numa pessoa que está nos observando. Isso implica em observar, analisar e entender a nova cultura de forma que a nossa vida também possa falar. Duas missionárias tiveram certa dificuldade no início do seu trabalho numa tribo no México, porque costumavam tomar limonada junto com o café da manhã. Ninguém aceitou a mensagem delas, até que elas descobriram que os membros daquela tribo criam que limonada é um anticoncepcional! Eles pensavam que as missionárias solteiras eram mulheres de vida irregular por causa da limonada!

Mas, apesar das dificuldades, a nossa mensagem é o evangelho, compreensível a todos. Por mais diversas que sejam as culturas e línguas, o evangelho pode ser transmitido a todos, sem exceção.

Esse evangelho tem três aspectos fundamentais para todos os que o ouvem:

  1. É uma mensagem que satisfaz ao ser humano em todas as áreas da sua vida (moral, sentimental, psicológica, social, material). Nenhuma fase da vida humana está excluída do senhorio de Jesus Cristo.
  2. O evangelho precisa ser compreendido por todas as pessoas em termos conhecidos dentro da sua maneira de pensar e viver.
  3. O Espírito Santo é quem deve expressar para os convertidos a maneira de viver a vida cristã. O evangelho, em cada cultura, será expresso de muitas formas, diferentes umas das outras, tendo, cada uma, qualidades distintas, justamente por causa desta diversificação de costumes. Consideremos que nenhuma cultura conseguiu ainda uma expressão perfeita da vida cristã (incluindo a nossa), mas cada uma tem sua própria contribuição a dar, que deve ser feita com liberdade.